Poemas de Sidnei Olivio

Veja um grafo dos poemas de Sidnei Olivio

Um rito para este feitio

SIDNEI OLIVIO Gerar poema da máquina
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1.
Assim que te vejo
vermelha
ventre mate entre o verso
e o acidente
corpo preso em gestos
de liberdade.

Não te nomeio. Tua imagem
são mil nomes
sem nenhum receio.

Expões-te àquilo que passa
diante da lente
a inquietude latente do verbo
um arrepio
às voltas do cordão
silêncio tecendo o fio
que nos resgata
deste (im)provável
labirinto.

2.
(De feitio selvagem) o corpo
na urgência da finitude
sangrando palavras estorvadas
que não superam o desejo.

Se o tempo arrasta o mundo
e se basta
quero a vida
e seus pretensos milagres
nada que me afaste
da substância dos sonhos
para além do cordão
e das estradas
entranhas emolduradas
pelas manhãs.
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SIGNOS DE PASSAGEM

Sidnei Olivio Gerar poema da máquina
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a tarde se estende 
feito um rio canalizado 
em avenidas perdidas. 

corredores que emendam
esquinas,  refúgios,
amores vãos, 

verbos tecidos em lençóis 
de hotéis baratos.
anseios mal intencionados, 

carregam imensa questão:
aqui estamos ainda 
incertos do que será - 

manter a forma 
ou primar a rima?
faço as pazes com a dúvida. 

deixemos tudo no chão,
esse acúmulo de luares
e palavras infames. 

versos repetidos 
habitando nossa boca
como uma memória sem ruído. 

sentença de existir 
para entender o possível:
transformar arte em lugar. 

quadro que sustente
o corpo desvestido 
de rosto ou nome. 

DNA da saliva presa
numa xícara de café
ou na tampa da caneta. 

quem sabe de nós 
imersos na cidade
a ouvir oráculo das runas? 

no futuro da hora
pisamos sobre as coisas
que já não cabem no mundo.
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a delicadeza da planta que ainda não vingou

SIDNEI OLIVIO Gerar poema da máquina
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nas linhas descontínuas das suas mãos 
a vidente enredou as ruas acidentadas do destino.
o inverno se avizinhando trazendo o deserto 
para baixo do equador 
era o presságio da desesperança
da falta de esmero da idade (as palavras 
penduradas no ponteiro do tempo 
se esquecem da sintaxe do desvelo 
e invadem o silêncio).
suspensa a estação dos encontros
na sutil e fragmentada história de vida.

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mãos secas e despovoadas
hesitantes do plantio
em solos estéreis.
custa semear sepulturas
(templos de solidão infinda)
solos rasos e estéreis
de profundo vazio
onde o vento sussurra
o momento adiado.

vale enfim o poço
cavado onde o corpo
que se extingue na aparência
brota como mensagem
de futuras estações.
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à sombra dos ciclos

Sidnei Olivio Gerar poema da máquina
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vultos à volta
movem-se lentamente 
feito lembranças 
de um tempo ardiloso 

o espelho prende à parede
translúcida realidade -
anverso das manchas de aço 
no impressionismo da face 

em vestes esvoaçantes 
(à moda dinâmica dos fantasmas)
cortinas balançam o vento 

revolvem poeira
sobre o soalho de pedra
que atravessa corredores 
da casa ancestral 

estiagem que anuncia
finitude de estações 
nesse acúmulo de setembros
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Somos todos autistas

SIDNEI OLIVIO Gerar poema da máquina
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É para isso que lhe escrevo
para que você possa entender
que a solidão é apenas uma distopia
um sintoma da nossa individualidade
nesse mundo de perplexidades irreparáveis.

É para isso que lhe escrevo
para que você resgate do útero da vida
o desassombrado
o momento inicial da única e efêmera união
que se acaba no corte do cordão umbilical
(essa é a marcha da subversão
à hierarquia conformada da origem).

É para isso que lhe escrevo
para que você aceite essa eterna condição 
que não é única nem se desdobra em abandono
pois há alguém que lhe escreve
na confluência das dimensões
onde jorram palavras entoando proximidade
caminhando na mesma direção.
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O tempo de desenrola em partes

Sidnei Olivio Gerar poema da máquina
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Seis de agosto do ano de vinte duplo. A cidade parece habituada à nova peste. Azul absoluto no céu. Sem começo nem fim. Na fria manhã o vento se encarrega da poeira e difunde o som das sirenes tão comuns nesses dias. O dia seguirá igual aos outros: impuros e ininterruptos. Sobrepondo-se aos acúmulos de vida e morte.
Invadido pela luz era hora de postar-se ao espelho. Há duas formas de se olhar: a primeira é se aproximar e observar os detalhes do tempo. Outra é se distanciar ao máximo até que a imagem desapareça devagar. Como sendo levada pelo vento. De qualquer modo é impossível fugir da estação subitamente excessiva.
O tempo se desenrola em partes. Em alguma parte. E parte numa intenção simplificada. Essa história que se constrói em partes que desconheço. E que se repete. Outra noite insone: sem possuir o sono eis o que também se torna comum após tantas repetições.
Desço desse trem de sinuosas sinas. De dores inconfessadas. É o que basta para silenciar o anseio e enxergar a existência escancarada pelos fatos. Nada escapa à tela cromática do mundo. A identidade que se completa de si mesmo. Um misto de poeta e exegeta.
Essa duplicidade e concretude são as armas que empunho contra o mundo. Um pé no desejo outro no medo. E os acontecimentos logo abaixo do que não enxergo semelha a um sono extemporâneo. (Nesse agora durmo de mãos dadas com o sortilégio. O desejo é só imagens e poesia: barco navegando no pós tudo que o vento insiste impulsionar).
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